domingo, 10 de janeiro de 2016

Co-Pilotos: Os heróis invisíveis!

Numa dia em que os pilotos descansam em Salta durante a habitual pausa no final da primeira semana de "Dakar", há quem não tenha descanso, nomeadamente os mecânicos, que trabalham no sentido em que tudo esteja perfeito para as máquina enfrentarem a dura semana que decidirá o desfecho da prova. Para além dos técnicos, os Co-Pilotos também trabalham com afinco a preparação das próximas etapas.

 Os co-pilotos são os heróis anónimos do Rally Dakar. Afinal, só eles sabem o caminho, literalmente! Ao contrário dos ralis convencionais, num rali de todo-o-terreno as equipas não sabem o caminho e nessa perspectiva, os navegadores ganham extrema importância, lutando para que os seus pilotos saibam o que irá acontecer ao longo dos quilómetros e os possam fazer o mais rápido possível. Nesta tentativa de serem os olhos do piloto, os co-pilotos estão limitados ao uso do "road-book", "Terratrip" e GPS, que apenas funciona como uma espécie de bússola. Falámos com os navegadores da X-Raid, equipa vencedora das últimas edições do Dakar, que estão entre os mais experientes da modalidade. 

No "road-book", setas e símbolos informam o co-piloto qual a rota a seguir e informações importantes sobre todo o percurso - como a existência de perigos, o tipo de piso que irá encontrar, a existência de limites de velocidade, entre outros. Para além destas informações, existe ainda uma secção do documento que mostra as distâncias totais de uma etapa e as distâncias parciais entre cada nova informação.

 Para complementar a informação do "road-book", os co-pilotos contam com um "terratrip", que é um dispositivo que os informa qual a distância percorrida. A linha superior do ecrã mostra a quilometragem total, enquanto que a linha inferior mostra a distância parcial que, com um botão, pode ser restabelecida a zeros. O dispositivo tem a flexibilidade de poder mostrar outras informações, como o tempo ou a velocidade. As distâncias apresentadas no "terratrip" são, por vezes, diferentes das que são apresentadas no "road-book", o que pode ter várias causas como, por exemplo, a derrapagem das rodas devida à falta de tracção ou mesmo erros no próprio "road-book" . Esta informação pode, no entanto, também ser ajustada pelo navegador a qualquer momento.

 Os sistemas de GPS usados no Dakar são bastante diferentes daqueles que podem ser encontrados no trânsito do dia-a-dia e funcionam apenas como uma espécie de bússola. Para além disso, o sistema só começa a trabalhar quando a equipa se encontra dentro de um certo raio à volta de um "waypoint", para orientar o co-piloto para a correcta localização do ponto. Os "waypoints" são pontos de passagem obrigatória, existindo vários ao longo de cada etapa e têm como função impedir que as equipas utilizem atalhos, obrigando assim todas as tripulações a cumprir o mesmo percurso.

A falha de um ou mais "waypoints" implica a aplicação de penalizações ou mesmo à desclassificação da prova. A rotina de preparação de um co-piloto para uma etapa começa assim que chega ao "bivouac" no final da etapa anterior, altura em que a organização disponibiliza o "road-book". Os pilotos aproveitam o máximo possível para descansar e estarem assim fisicamente preparados para o dia seguinte, mas os navegadores têm normalmente várias horas de trabalho para preparar a etapa seguinte, numa tarefa que pode fazer a diferença entre uma vitória e um engano no percurso que pode custar preciosos minutos.

 A preparação do "road-book" para uma etapa consiste na análise e marcação de cada página, sendo que os co-pilotos utilizam marcadores de diferentes cores para dar destaque a cada figura no livro. Cada navegador tem o seu código de cores, conforme as informações às quais quer dar mais importância sendo que, durante a etapa, quando olha para qualquer uma das cores saberá mais facilmente o que dizer e a importância da informação, que é transmitida ao piloto a partir de intercomunicadores integrados nos capacetes.

 Um co-piloto perde em média 1 hora a preparar 100 quilómetros de "road-book", o que nos leva a questionar se no total das 24 horas que compõem um dia existe algum tempo para também eles poderem dormir e descansar!? Certo é que, por vezes, o sono tem de ficar para segundo plano...